Perdido na Birmânia: as primeiras horas

Estou na Birmânia à procura de histórias para contar. Acompanhe aqui a minha viagem.
Por: Gonçalo Câmara

Chegou a altura de uma nova jornada, uma nova expedição, uma nova viagem. Quem me conhece sabe como isto para mim é oxigénio. Quem me conhece ainda melhor sabe como a ressaca é grande quando se fica parado. É tempo de redescobrir o espanto das coisas, de olhar o mundo e ouvi-lo. Estou na Birmânia à procura de histórias para contá-las. Vou voltar a procurar o desconforto para vivê-lo e amadurecê-lo. Vou procurar a sabedoria que preciso para entender um regresso. Mas para isso, é preciso primeiro...ir.

Da azáfama das cidades caóticas à quietude de Bagan, passando pelo teste aos limites da paciência nas morosas doze horas de autocarro e comboios. Terminarei a jornada na ponta da língua do país, a sul do Sul, onde os turistas não chegam. Quero perder-me na cultura "moken" e conhecer a rotina dos ciganos do mar. Entender a vida no arquipélago de Mergui e a beleza da península de Dawei. Espera-me quase um mês de procura e discernimento.
Sempre me fascinou a cultura e filosofia oriental e nela mergulharei numa busca de autenticidade e conflito para poder aumentar a capacidade de reflexão e orgulhar-me disso. Porque tudo o resto, que tem sido tanto, é tão pouco. E eu preciso de mais que os dias em si.

Aterrei em Yangon e o turbilhão começa quando se abrem as portas para o exterior do aeroporto. Centenas de birmaneses à procura de uns trocos que me abordam simpaticamente para me levar ate ao centro da cidade. Já sabia o que queria e por isso tive que rejeitar as ofertas. Apanhei um autocarro que levou cerca de uma hora até ao centro. Eram oito da manhã e o trânsito já se fazia sentir. Trânsito típico de uma cidade asiática, bem como todo o caos que tempera os dias. De dinheiro trocado, cartão SIM comprado e com as direcções certas, cheguei ao hostel. Instalei-me, deixei a mochila e saí a pé para conhecer as redondezas.

A melhor forma de conhecer uma cidade é percorrendo todos os seus cantos a pé. De ouvidos bem abertos e de coração atento, tudo o que nos chega é maravilhoso. Os sons da cidade, das pessoas, dos carros, da rotina. Milhões em pouco espaço. Entrei no comboio circular de Yangon, onde mora a autenticidade e a melhor forma de conhecer o dia-a-dia dos birmaneses. É mais do que um meio de transporte: é um mercado ambulante, é lugar de conversas e de reencontros. O comboio levou três horas a percorrer toda a cidade e em cada recanto, uma vida diferente que ali se dava.

Os habitantes trazem consigo uma simpatia capaz de conquistar ao primeiro olhar. Estão dispostos a ajudar, a compreender, a levar e a ser prestáveis. Um único objetivo: cuidar. Assim é por aqui pela Birmânia. Depois do comboio e de explorar alguns mercados, aproveitei para ir experimentando as abordagens da street food. Há sabores que reconheço, alimentos que nem por isso, mas aí está a beleza da coisa: descobrir novas formas de levar o mundo à boca. Os dias são compridos no Myanmar, assim como a minha vontade de contar o que aqui vivo e viverei.

É tempo de descanso. De Yangon partirei para Bagan, num autocarro de doze horas. É um autocarro noturno onde pouparei uma noite. Chego a tempo do nascer-do-sol no primeiro templo. É por lá que irei agradecer a oportunidade de olhar o mundo.

Até já, Portugal.

(veja algumas das primeiras fotografias que tirei na Birmânia)

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