Perdido na Birmânia: Dos campos ao mar, a paz que se encontra

Acompanhe mais um episódio da minha aventura por terras birmanesas.
Por: Gonçalo Câmara

Proximidade e intimidade são coisas distintas. Pode existir proximidade sem intimidade mas nunca o contrário. Aqui, em terras birmanesas, as pessoas parecem não criar barreiras nem para uma nem para a outra.

Desde o monge que sobe ao topo do mosteiro para estar com o turista na esperança de aperfeiçoar o seu inglês, ao camponês que se entrega num olhar demorado e tímido. Pela Ásia - e sobretudo aqui pela Birmânia - tenho reparado que esta gente já criou a proximidade antes sequer de termos chegado. A intimidade, essa, embora longínqua para nós, é uma realidade muito próxima e alcançável no seu imaginário.

Há pessoas que nos são próximas e pessoas que nos são íntimas. Para lá da proximidade e da intimidade, está um lugar. Uma casa, um espaço, as águas quietas de um porto. Alguém que se torna num momento ou num lugar onde repousar silêncios.

Há neste povo um desejo intenso de agradar, de poder cuidar, de se tornar lugar.

Nas primeiras horas da manhã em Hsipaw, peguei numa velha e débil bicicleta e arrisquei-me a explorar as vilas das redondezas. Passei por escolas de madeira humilde em pleno intervalo das aulas onde os miúdos iam contentes comprar doces à cabana da frente no tempo livre que lhes restava. Vi como os camponeses tratam bem do seu lugar e onde vêm naquilo que plantam, uma esperança ainda maior do que poderão dali colher.

Demorei 14 horas de autocarro até Inle Lake - num sleeping bus. Aqui, fugindo à atração turística, reina uma rotina séria de pescadores capazes, humildes e bem-dispostos.

Os amanheceres, bem como as horas em que o Sol descansa, são tempos de paz por Inle Lake. Recomeços e repousos, em terra de gente que nos entrega o seu lugar, tornando-o nosso.

Depois da realidade camponesa e da vida dos pescadores em Inle Lake, rumei para o sul do Sul, na ponta da língua do país, onde os turistas raramente chegam. Primeiro Myeik e depois Dawei. A cultura "moken", os ciganos-do-mar que todas as manhãs se mandam e atravessam num barco a esperança de trazer comida para a mesa. Saem das suas cabanas de bambu e atrevem-se. Os mais pequenos aprenderam com os seus pais e muitos deles já vão sozinhos.

Este ano troquei o deserto e a montanha pelo mar. Não é o azul profundo de um Atlântico açoriano, mas é uma verdade absoluta do Índico no Mar de Andamão: as águas quietas do arquipélago de Mergui. Nelas mergulharei, bem como na vida desta boa gente.

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