A m80 em Direto

07h às 11h
Da bruma ao bem-estar: no meio do Atlântico
Gonçalo Câmara

Da bruma ao bem-estar: no meio do Atlântico

Gonçalo Câmara
Os sinos tocam na Madalena. Estamos de novo nos Açores, desta vez na Ilha do Pico com voo direto de Lisboa num sábado ainda a começar.

Instalamo-nos em Santa Luzia, relativamente perto do aeroporto, numa casa de campo onde ficaremos os oito dias. O Laurent e a Maria da Luz são os nossos senhorios naquela semana, moram por cima e sabem como receber quem vem de fora. A casa, para além de impecavelmente limpa, tem um cabaz digno de prémio na mesa da sala comum. Massa sovada, bolo lêvedo, fruta, compotas e vinho do Pico. Não merecíamos uma coisa destas. Assim recebidos fica ainda mais fácil viajar. 

O desejo de liberdade era de tal forma intenso que fomos ao snack-bar mais próximo beber um "fino". Ficámos a conhecer o bar "A Montanha", com vista para a própria. Uma coisa que para aquela gente é banal, para nós é motivo de silêncio e contemplação. Chega a primeira imperial e quando os lábios tocam na espuma a liberdade chega-nos de rompante como quem já não sente uma cerveja de pressão numa esplanada há mais de três meses. Um fino, dois finos, três, perdemos a conta. A montanha continuava firme, o nosso olhar já nem tanto. Conhecemos a Cátia, a Marlene o Nuno, picarotos donos do espaço que também sentiram a nossa liberdade e pela conversa agradável já em câmara lenta. Horas e gargalhadas depois, jantamos no Ancoradouro, na Madalena. Um dos restaurantes mais conhecidos do Pico, também ele afectado pela pandemia. Somos os únicos no restaurante. Um arroz de polvo que pedimos para três, dava para sete, mas ali não estava mais ninguém. Levámos o que sobrou para a Casa da Luz. 

Os dias seguintes foram de redescoberta das pérolas do Atlântico Norte, as estradas infindáveis que acabam no mar, as freguesias sossegadas de vez, as nuvens que ora protegem o mar, ora a montanha. O Sol que rasga a bruma com o tempo contado. A montanha, ali, apenas a fazer o que nasceu para fazer: ser. 

Enquanto naquela casa há gente em teletrabalho, eu aproveito para dar mais umas voltas pelo Pico e mergulhar na zona do Cachorro, ainda com vista para a ilha azul. Água límpida mas fria. Os ossos regelaram mas o primeiro mergulho do ano está dado, em mar açoriano. Há tempo para apanhar um barco até ao Faial, meia hora de caminho no navio Gilberto Mariano. Reencontro uma pessoa especial na Horta que me mostra a ilha segundo os seus olhos. Pouco tempo para tanta boa memória. Faz vento no canal mas o barco sai na mesma de regresso para a ilha do Pico, fico de voltar para um gin no Peter, noutro dia a combinar. 

Volto a Santa Luzia, continuam em teletrabalho. Saímos para jantar e descobrimos um dos melhores bifes dos Açores na Taberna do Canal, também na Madalena. Três bifes, milhares de sabores e ainda a simpatia do "Farmácia", como era conhecido o dono do restaurante. Não era do Pico mas foi para lá morar. Como o percebemos. Um bife suculento, bem grelhado, com ovo e um molho especial com segredos por desvendar. Nada mais há a dizer, apenas o convite para lá ir. No meio dos quilómetros feitos naquele carro alugado, foram muitas as descobertas: gastronómicas, paisagísticas e sociais. 

Demos com um lugar recôndito numa das pontas da ilha: Santa Cruz, nas Ribeiras. Zona pacata, de pescadores que tentam a sua sorte num mar agitado para os próximos dias. Velhotes que se juntam para jogar dominó dentro do Clube Náutico e um bar chamado "O Emigrante". Muitos foram para o Canadá e não regressaram. Outros para os Estados Unidos e de bolso cheio para uma vida sossegada nos Açores. As histórias contam-se ao balcão daquele bar, acompanhadas por uma tosta mista saborosa que dava para distribuir pelos poucos habitantes da freguesia. 

Um dos jovens que ali estava era professor na Terceira, regressara para umas pequenas férias junto à família. Quem por ali passa cumprimenta com entusiasmo e saudade. Ele é o responsável pela piscina natural de Santa Cruz e sabe em primeira-mão, através de um deputado que ali foi tomar café, que este Verão volta a estar fechado. Surpreso e ansioso, paga-nos uma rodada. A má notícia transformou-se em conversa e aprendizagem. E não devia ser assim a vida? 

Ainda deu para regressar ao Faial para uma visita curta ao Peter's. Curta em tempo, não em quantidade de gins e tostas mistas. Quem conhece, sabe que não é só por isso. Aquele espaço tem história. De quem ali vive e de todos os outros que já por lá passaram. Navegadores do mundo inteiro que atravessaram o Atlântico. Uns passaram, outros ficaram. Todos têm ali a sua marca na Marina da Horta. 

Tivemos acesso a um contacto directo que nos colocou frente a frente com o João Xavier, picaroto dono de uma vinha de três hectares na Candelária que já fora do seu pai. Ao fim do dia conhecemos o terreno e a adega. Sentámo-nos para provar os vinhos que produzia: Arinto, Angelica e Aguardente de Figo. Na mesa estavam bananas do seu bananal e queijo da ilha. Ali ficámos, sentados e bem-dispostos. Era um homem do vinho e também do mar. Dizia que quando vinha ao continente e se punha com a mulher no Colombo, a probabilidade de encontrar alguém do Faial, do Pico ou de S.Jorge era enorme. Umas belas fatias e Angelicas depois, temos dificuldade em levantar mas ainda vamos a tempo de jantar no Petisca. Para a mesa vêm Patinhas, a melhor versão de um peixinho da horta e ainda lapas grelhadas e frescas. Um polvo com batata doce e um bife de atum grelhado que deixa curioso quem passa. A noite termina com simpáticas raparigas da ilha que gostam sempre de saber o que leva três continentais a passar uma semana por ali. A resposta é sempre a mesma: ali está-se bem. 

 

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