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Redação
14 junho 2021, 13:45
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Adolfo Luxúria Canibal: "não sei se ainda dá para rock & rollar em Budapeste"

Peter Lakatos (Associated Press)
'Budapeste' é o tema mais conhecido dos Mão Morta. Para o vocalista bracarense, a canção deu "uma falsa imagem do que eram os Mão Morta".

Como é do conhecimento dos adeptos de futebol, Budapeste é onde a seleção nacional portuguesa está baseada e onde vai disputar dois dos três jogos da fase de grupos.

'Budapeste' é também o tema dos Mão Morta mais reconhecido do grande público, tendo aquecido o éter radiofónico no início dos anos 90. A banda comandada pelo vocalista Adolfo Luxúria Canibal ganhou uma projeção inusitada nessa altura, que jorrava para fora do ambiente de culto a que estava habituada. 'Budapeste' integra o álbum conceitual de 1992, "Mutantes S.21", e o respetivo circuito de nove cidades (oito reais e uma mística) por onde viaja a música dos Mão Morta, em especial as letras vocalizadas por Adolfo. Amesterdão, outra das cidades do Europeu de Futebol, também merece uma faixa (de canais de água) em "Mutantes S.21", por onde se aventura a mente boémia de Adolfo.    

Se em 'Amesterdão' se enfia num barco a altas horas, em 'Budapeste' Adolfo passeia-se num Trabant [o automóvel de maior produção da antiga República Democrática Alemã], "de bar em bar a aviar, sempre a abrir a noite toda, sempre a rock & rollar". Mas isso foi há cerca de 30 anos. Tal como Luxúria Canibal nos recorda, "a última vez que fui [a Budapeste] foi antes desta governança ditatorial que lá existe [referindo-se ao primeiro-ministro húngaro vigente Viktor Orbán]. Não sei sequer se ainda dá para rock & rollar em Budapeste. É uma cidade bonita e com belíssimas vibrações, era conhecida como a Paris do Leste. Os húngaros são um bocado frios mas a cidade era bastante agradável, com essa vontade enorme de desbundar. Quando fiquei mais próximo dela, era um momento histórico, tinha acabado de cair o Muro de Berlim. Estavam a encontrar uma liberdade ocidental que só conheciam por sonho. Estavam a vivê-la toda em simultâneo, em grande euforia. [Havia] uma sede grande de liberdade, o que a tornava numa cidade com um ambiente muito particular, especial e sempre agradável".    

  

O rebuliço imaginado em 'Budapeste' não se tornou em Portugal bem naquele que os Mão Morta desejaram, conquistando sem querer um outro público que só estava disposto a ouvir aquela famigerada canção. "Deixámos de o tocar não propriamente por nos termos fartado do tema, que é belíssimo, mas porque se tornou no único tema conhecido do grande público. Era um tema que atraía esse grande público que depois não se reconhecia nas outras músicas dos Mão Morta. Esse tema criou uma falsa imagem do que eram os Mão Morta. Preferimos cortar o mal pela raiz e deixámos de tocar o tema durante alguns anos. Quando a canção deixou de ser um isco atrativo, passámos a integrá-lo normalmente, como se fosse um tema normal dos Mão Morta num alinhamento de concerto, quando calhava. Durante algum tempo, deixámos de o tocar porque não era a imagem que queríamos dar, apesar de ser um belíssimo tema e de retratar o que era Budapeste".

Nesse retrato da carismática capital húngara a celebrar a nova liberdade, havia uma banda que se ouvia nas caves das duas margens do rio Danúbio e que unia Buda a Peste: "o som dos Velvet Underground era o que se ouvia mais em todo o lado em Budapeste, porque fazia a ligação entre as coisas mais estranhas, do jazz ao rock, à música mais pop, à mais avant-garde. Os Velvet Underground apareciam sempre lá no meio. Era uma constante que tinha que ficar espelhada no tema que fizemos sobre Budapeste".

 

Adolfo é bracarense e... braguista. A paixão pela equipa das Quinas é também incondicional. E nem a ausência de qualquer jogador do Sp. Braga entre os 26 convocados para o Europeu amolece a inclinação emocional pela seleção de Portugal. "Ligo à seleção, porque gosto de ver futebol. Quando a seleção de futebol está a jogar bem, gosto de a ver jogar e ganhar. Gosto tanto da seleção como do meu Braga. Quando o Braga ou a seleção jogam, tenho um lado. Felizmente, não jogam um contra o outro". 

Se o seu apoio incondicional tem espaço para duas equipas, o Sporting Clube de Braga e Portugal, a escolha de um jogador nacional da sua admiração é só uma. “A grande referência é sempre o mesmo: o Cristiano Ronaldo. Não só por ser o melhor do mundo, mas porque tem um percurso ímpar. É uma pessoa dedicada, determinada, com grande força de vontade. É um exemplo de vida”.

 

Temos estado a falar com vários músicos, a propósito do Europeu de Futebol. Podem consultar aqui os depoimentos de Nuno Gonçalves, dos Gift, que tem acompanhado a seleção nacional em todos os estádios onde tem jogado nas fases finais, desde 2004.


 

Portugal joga em Budapeste nesta terça-feira, dia 15, às 17h00, frente à Hungria, no jogo de estreia da seleção no Europeu de Futebol.

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