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Redação
15 junho 2021, 15:10
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Rui Reininho e o Euro 2020: "os nossos moços estão sem cabedal"

Mimi Sá Coutinho
Vocalista dos GNR não acha piada a um Europeu de Futebol em tantos países diferentes.

O vocalista dos GNR, Rui Reininho, nunca deixou de lado da sua mestria da performance em palco o humor inusitado e a espontaneidade de trocadilhos. Para o cantor nortenho, não há assuntos tabus, e nunca teve problemas em meter uma piada ou outra de âmbito futebolístico.

Portista indefetível, também incendiou os ânimos da multidão com a sua paixão pela seleção nacional, tal como aconteceu no concerto dos GNR no Estádio das Antas, a 19 de junho de 1993. Horas antes, noutro ponto da cidade do Porto, Portugal (com os muito jovens Rui Costa e João Vieira Pinto inspirados) havia derrotado no Estádio do Bessa (antes de ter sido remodelado) a seleção de Malta por 4-0. E Rui Reininho não se cansou de enaltecer nessa noite de junho, em pleno megaconcerto, a tarde produtiva da equipa das Quinas. 

Hoje, em 2021, Rui Reininho confinou o seu entusiamo pelo futebol em era de pandemia, com as bancadas vazias e um condicionamento militarizado. "Estou muito cansado dessa história dos jogos-treino. Uma pessoa nem sequer pode meter o bedelho. Já nem me dá pica telefonar e mandar umas bocas aos amigos: 'tumba, enfardem'". "Não estou nada sintonizado. Houve duas ou três alturas na minha vida em que dessintonizei do futebol, foi para ali nos anos 70, em que a Argentina era fantástica, com os Kempes e os Maradonas e não sei que mais. Eu só via Argentina e pouco mais”.

 

Rui Reininho sente na pele o que é comandar uma atuação num cenário de ficção cientifica. "Estes espetáculos sem público são angustiantes, com as pessoas ali separadas e mascaradas. Só falta estarem amarradas porque não se podem levantar. Os GNR vão ter um espetáculo em Arcos de Valdevez, num queridíssimo auditório, mas as pessoas vão estar à distância. Têm que entrar meia-hora antes, têm que sair meia-hora depois. São todas revistadas, investigam-lhes os narizes, apalpam-lhes os rabos. Noto que a energia das pessoas não está a fluir da mesma maneira, não é espontânea. Já não conseguimos ter aquele delicioso maluco que nos estraga os concertos todos. Coitado, o chato da terra agora já nem entra, nem sai. No futebol, é o mesmo. Não tem graça ver gajos a queimarem coisas à porta”.

 

Há uma outra distância que causa estranheza a Rui Reininho, na iminência de mais uma grande competição futebolística de nações: “o Europeu é cada vez mais longe e confuso, em 11 países”, numa dispersão geográfica inédita na história do desporto-rei. Não foram de certeza os recentes jogos amigáveis de Portugal que tiraram do coma a paixão futebolística de Rui Reininho. "Achei o meio-campo muito fracote. Os nossos moços são muito talentosos mas estão outra vez sem grande cabedal”. E a baliza parece uma miragem, às vezes a poucos metros. Não parece ser só um problema do FC Porto e do seu avançado possante Marega. “Fiquei feliz porque já estava farto, no meu caso pessoal, de ver aquelas maregadas. Mas estou com receio que se arranje outro”.

 

Apesar do portismo de Rui Reininho, o cantor de Leça da Palmeira tem um certo carinho pelo treinador do maior clube rival, Benfica. "O Ministério da Cultura devia dar um lugar de destaque ao nosso Jorge Jesus. Sem ele, o futebol não é a mesma coisa. Gosto de ver aquela cabeça a pensar. Começa com divagações filosóficas: ‘porque quando vais para ali não és quem és’. Conheci-o há muitos anos e fiquei a admirá-lo. E depois são pessoas que amam aquela arte". 


 

 

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