José Carreras: um forte aplauso de pé

À longevidade, ao legado e à entrega. O tenor espanhol atuou esta noite na Altice Arena, em Lisboa, no âmbito da digressão de despedida dos palcos. O concerto teve tanto de majestoso como de emotivo.
Rúben Viegas
À longevidade, ao legado e à entrega. O tenor espanhol atuou esta noite na Altice Arena, em Lisboa, no âmbito da digressão de despedida dos palcos. O concerto teve tanto de majestoso como de emotivo.

 

José Carreras reencontrou-se com o público português. A noite foi elegante, graciosa, imponente e esteve sempre bem aconchegada por uma simplicidade comovente. O tenor catalão, que anda em digressão para dizer adeus aos palcos, passou pelas glórias mais conceituados do canto lírico, visitou a Broadway e não se esqueceu das canções que o levaram a outros públicos. De Fausto a La Wally, passando pelas obras de compositores conceituados, como Alessandro Derevitsky, Francesco Paolo Tosti ou Dmitri Shostakovich, José Carreras entregou a voz à música que tem pautado uma carreira que já soma mais de sessenta anos. Ainda vibrante, a voz, que o cansagrou, ressoou na Altice Arena com força para chegar a diferentes lugares. A condução da magnífica noite esteve a cargo do maestro David Giménez, sobrinho de Carreras.

O cantor, e a grandiosa carreira que construiu, foram recebidos de braços abertos. O público sabia que estar, esta noite, na sala lisboeta, ao largo do Tejo, seria um privilégio. Já que este poderia ser o último concerto de Carreras em palcos portugueses, era importante estar à altura do momento.

Dividido em duas partes, o concerto começou com uma homenagem ao compositor francês Georges Bizet. Farandole, de L?Arlesienne Suite, foi a composição clássica escolhida para a abertura com o virtuosismo, muito aplaudido, da Orquestra Sinfonietta de Lisboa. Ainda sem Carreras no palco, brilharam os instrumentos de sopro, cordas e percussão. A composição, de espírito leve e amistoso, arrancou os primeiros aplausos e serviu na perfeição para antecipar a chegada de Carreras ao palco. 

Assim que a figura do cantor espanhol surgiu, entre o mar de instrumentos que compunham a orquestra, o público aplaudiu com um tremendo sentido de respeito. Carreras dobrou-se ligeiramente para agradecer. Ouviu-se a popular composição napolitana Marechiare, de Francesco Paolo Tosti, que outrora o famoso tenor já havia partilhado com Luciano Pavarotti e Plácido Domingo - quando as três vozes magnânimas do mundo lírico dividiam os palcos.

Pecchè manteve Carreras nas composições da antologia clássica napolitana. A passagem pela obra do compositor Gaetano Enrico Pennino - interpretada com melancolia na voz e nos violinos - antecedeu à entrada da grande convidada da noite, Isabel Alcobia. A soprano portuguesa subiu ao palco, vestida de tons dourados, para dar brilho (não só o do vestido) a Ah! Je Ris De Me Voir Si Belle, uma ária da tragédia de Fausto - a controversa ópera que o francês Charles-François Gounod compôs em meados do século XIX e que subsiste como uma das mais populares. A voz, muito ovacionada, de Isabel Alcobia deu vida aos deleites da personagem, Margarida, a radiosa amante de Fausto, mas também aos do público.   

José Carreras voltou para uma interpretação imaculada de Canción del Gitano, do compositor espanhol Francisco Alonso, oferecendo depois, como um autêntico cavalheiro, o palco a Isabel Alcobia que respeitou a graciosidade magoada de Ebben, Ne Andró Lontana, um dos momentos mais famosos da trágica ópera italiana La Wally.     

Waltz 2, a conceituada valsa do compositor russo Dmitri Shostakovich foi entregue com solenidade à orquestra lisboeta que Carreras fez questão de deixar brilhar em diferentes momentos do concerto.

O momento antecedeu ao primeiro dueto entre José Carreras e Isabel Alcobia. O tenor espanhol e a soprano portuguesa partilharam o palco para a interpretação de Je Te Veux, do vanguardista Erik Satie. A canção clássica foi cantada com as duas vozes entrelaçadas com juras de amor, acesas pelo desejo.    

The Impossible Dream, do musical The Man Of La Mancha, também celebrizada por Elvis Presley, foi a primeira visita à Broadway. O título lembra a aventura de José Carreras com Luiciano Pavarotti e Plácido Domingo. Na altura, o sonho de juntar os três no palco parecia impossível, mas concretizou-se. A reunião do trio de tenores serviu de boas-vindas a José Carreras que estava a regressar aos palcos depois de recuperar de uma dura leucemia. Hoje Carreras lembrou o sonho impossível que, nos anos noventa, arrebatou o mundo e que acompanhou outra conquista, a da sobrevivência.
 


Serenata Sincera, Passione, Les Filles de Cadix ou Dicitencello Vuie foram sendo alternadas, entre as vozes dos dois cantores clássicos, até o foco voltar a estar na orquestra para um exemplar do interlúdio La Boda de Luis Alonso, do maestro e compositor espanhol Gerónimo Giménez.  

Cada vez mais perto do final, José Carreras, elegantemente vestido com um fato clássico, e Isabel Alcobia, com um vestido sumptuoso avermelhado, partilharam mais um momento grandioso. As duas vozes uniram-se para um segundo dueto, desta vez para a recriação de Dúo y Jota da ópera espanhola El Dúo de la Africana de Manuel Fernández Caballero. A coexistência feliz no palco de duas gerações do canto lírico arrancou um ou outro "Bravo!" da plateia que voltou a levantar-se das cadeiras para mais um aplauso.

As interpretações de Granada, com a garra de José Carreras, e do clássico do musical My Fair Lady, I Could Have Danced All Night, com Isabel Alcobia a viajar pelas notas com uma amplitude majestosa e impressionante, foram de tal forma épicas que poderiam ter sido as últimas da noite, mas não. Havia mais uma surpresa.

Houve flores, uma rosa branca (que chegou ao palco pelas mãos de uma pessoa do público) e um beijo terno que José Carreras deu na mão da cantora portuguesa que o acompanhou esta noite. Amigos Para Siempre foi a que ficou guardada para o final, cantada a mais do que duas vozes quando  as luzes da sala já estavam acesas. A despedida foi demorada com o público a aplaudir de pé. Muitos terão pensado, "até sempre, amigo". 

29 set 2019
Silvia Mendes
Música